Quando as pedras ficam lisas

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Autor(es): dc.contributor.authorLukata, Lasana-
Data de aceite: dc.date.accessioned2026-07-01T18:43:36Z-
Data de disponibilização: dc.date.available2026-07-01T18:43:36Z-
Data de envio: dc.date.issued2026-
Fonte: dc.identifier.urihttp://educapes.capes.gov.br/handle/capes/1180585-
Resumo: dc.description.abstractNão há improviso neste livro no sentido frágil da palavra. Há, antes, resistência. Quando as pedras ficam lisas nasce do encontro entre acontecimento e rigor. O poema aqui não é fruto de espontaneidade, mas de atenção extrema: algo irrompe no mundo — um gesto, um corpo, uma ave, uma máquina, um sistema — e a linguagem é forçada a responder com precisão ou a se desfazer. O que não corta é descartado. O improviso, neste caso, não dispensa a técnica; exige-a. A poesia de Lasana Lukata trabalha sob tensão constante entre controle e colapso. Os poemas não se entregam ao fluxo lírico nem ao discurso explicativo. Cada verso parece testado contra sua própria necessidade de existir. O que permanece é o que resiste à poda. O que fica liso, sai. Ao longo do livro, o leitor percebe que a linguagem nunca é neutra. Ela participa de sistemas, reproduz violências, organiza privilégios. Em poemas como Jogo de brilhar, o mundo aparece como engrenagem: sujeitos que se imaginam centrais — como diz o autor, sofrendo de obsessão hierárquica —, instrumentos que comandam, objetos sacrificados para que alguém pontue. Nesse sistema, os avisos não circulam de modo igual. Há um mundo paralelo que opera por códigos ocultos: seus agentes são esteganógrafos, glossotômicos; não pedem silêncio, exigem omissão — espeta o autor —, e o aviso só chega a quem está dentro do vespeiro. Para os demais, não há alerta — apenas o acontecimento. O poema não acusa; expõe. E expor, aqui, é gesto político — como observou, entre riso e advertência, a professora Cláudia Márcia Rocha ao ler um poema do autor: “Tenho pena de quem cair no bico da sua caneta. Você não é mau; você é cruel.” Dessa fala, inclusive, nasce a faísca que dá origem ao poema Garça descontrolada. Essa atenção crítica alcança o próprio léxico. Em Necrópolis, o poeta leva o gesto ao limite ao distinguir cemitério — lugar de repouso — de necrópolis, cidade dos mortos. O que está em jogo não é o espaço físico, mas o regime de sentido: palavras que suavizam a morte e palavras que a organizam como sistema. Quando o vocábulo alisa a violência, ele é recusado. Mas Quando as pedras ficam lisas não se esgota na crítica. Há também o corpo — marcado, medicado, sobrevivente — e o mar, não como metáfora romântica, mas como experiência concreta de trabalho, risco e perda. Em Porto, por exemplo, o poema é invenção e escuta. O mundo se oferece em coincidências improváveis — ar, água, máquinas, animais — e o poeta, em vez de registrar a imagem, registra o acontecimento em linguagem para transfigurá-lo. O poema surge como abrigo provisório, nunca como superfície polida. As aves que atravessam o livro — garças, biguás — não funcionam como símbolos ornamentais. São modos de pensamento. Ensinam uma ética da espera, da economia do gesto, da precisão do ataque. Contra a aceleração contemporânea, esses poemas operam por atenção prolongada e corte súbito. Há diálogo com a tradição — do imagismo à poesia crítica moderna, do mito à cidade —, mas sem reverência passiva. A herança é tensionada, atravessada, às vezes ferida. Em Salomão e Polifemo, o poema sustenta uma tese: a sabedoria que se absolutiza termina cega, e o mito reaparece não como resposta, mas como pergunta deslocada. Este livro não promete conforto. Tampouco oferece redenção. Ele propõe ao leitor uma experiência de atrito: poemas que se organizam como sistemas e, às vezes, falham; versos que brilham e, às vezes, resvalam no rude; palavras que se recusam a ficar lisas para agradar ao gosto ou ao consenso. Quando as pedras ficam lisas é, enfim, um livro sobre aquilo que acontece quando o mundo não avisa — ou avisa apenas aos que dominam o código — e a poesia, ainda assim, escolhe a aresta.-
Idioma: dc.language.isopt_BR-
Direitos: dc.rightsAttribution-NonCommercial-ShareAlike 3.0 Brazil-
Licença: dc.rights.urihttp://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/br/-
Título: dc.titleQuando as pedras ficam lisas-
Tipo de arquivo: dc.typelivro digital-
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